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Paulo César Pinheiro, um dos maiores letristas da MPB, foi gravado por Clara Nunes e Elis

Canções que se tornaram clássicas, como 'Espelho', 'Matita Perê' e 'Tô Voltando', são parte deste grande cancioneiro do compositor

Por Raphael Vidigal | 28/04/2022 às 15:22
Silvana Marques/Divulgação
Foto: Silvana Marques/Divulgação

Paulo César Pinheiro nasceu no Rio de Janeiro, no dia 28 de abril de 1949, e se consagrou como um dos maiores letristas da música brasileira, com canções gravadas por Maria Bethânia, Elis Regina, João Nogueira, Tom Jobim, Simone, Nelson Gonçalves, Emílio Santiago e, especialmente, Clara Nunes, com quem foi casado até a morte da cantora. Poeta de estirpe rara, ele legou verdadeiros clássicos à nossa canção popular brasileira, que seguem eternos. 

“Ingênuo” (choro, 1946) – Pixinguinha, Benedito Lacerda e Paulo César Pinheiro 
O radialista, cantor e compositor Almirante foi quem convidou Pixinguinha e Benedito Lacerda a participarem de seu programa “O Pessoal da Velha Guarda”, que seria a base para a criação da orquestra de mesmo nome. 

Contando posteriormente com Donga e João da Bahiana como convidados, entre outros, a iniciativa foi levada para a Rádio Clube em 1953, e mais tarde resultou no Festival da Velha Guarda, com transmissão para a rádio e a TV Record, em 1954. 

“Ingênuo”, choro de 1946, composto um ano antes do convite para a atração, tem ritmo dolente e sereno que comprova a versatilidade de um dos mestres da canção brasileira. Mais tarde, ganhou letra de Paulo César Pinheiro.

“Lapinha” (afrosamba, 1968) – Paulo César Pinheiro e Baden Powell
Valdemar de Tal ficou conhecido na Bahia como Besouro e também Cordão de Ouro, graças à sua valentia e habilidade como capoeirista. Figura lendária, ele inspirou o afrosamba “Lapinha”, que Baden Powell compôs com o, à época iniciante, Paulo César Pinheiro, um dos mais requintados letristas da música brasileira. 

Besouro foi assassinado por um golpe de faca, e seu nome correu ainda mais forte na Bahia a partir de sua morte. “Lapinha” fala sobre a passagem do herói para lenda. Lançada por Elis Regina na 1ª Bienal do Samba, promovida pela TV Record, venceu o concurso. A “Lapinha” da letra seria um local de festas.

“Pesadelo” (samba, 1972) – Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro 
No dicionário, “pasquim” significa “jornal difamador, folheto injurioso”, e foi por esse motivo que o cartunista Jaguar sugeriu o nome para batizar o semanário fundado em junho de 1969, do qual ele faria parte ao lado de nomes como Ziraldo, Tarso de Castro, Millôr Fernandes e Sérgio Cabral, pai do ex-governador do Rio de Janeiro, preso desde 2016. 

A ideia de Jaguar era se defender antecipadamente de prováveis críticas, além da evidente ironia. Para a história, “O Pasquim” se transformou num dos principais ícones da resistência à ditadura militar, aliando humor, política, crítica social e de costumes, e passou a ser sinônimo de uma imprensa livre e independente. 

Durante um período, a trupe pôde contar ainda com o auxílio luxuoso de Paulo César Pinheiro, letrista que colecionava parceiros tão diversos como João Nogueira e Baden Powell. Numa das músicas mais incisivas escritas contra a ditadura no país, Paulo César Pinheiro afirmava em “Pesadelo” (parceria com Maurício Tapajós): “Você corta um verso/ eu escrevo outro/ você me prende vivo, eu escapo morto/ de repente olha eu de novo/perturbando a paz, exigindo troco”.

“Sapato Mole” (MPB, 1972) – Maurício Tapajós, Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte
A história do Quarteto em Cy é uma estória de mudanças. Da Bahia, no interior, em Ibirataia, para o Rio de Janeiro. Do Rio para os Estados Unidos. Dos Estados Unidos para a Europa e da Europa para o Japão. De Cyva, Cynara, Cybele e Cylene, as irmãs iniciais, para Sônia Ferreira, Dorinha Tapajós, Sandra Machado, Regina Werneck, Cymíramis e Keyla. 

Neste caminho passaram Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Milton Nascimento, MPB-4, Ivan Lins, e outros. 

Pois uma coisa é permanente, nessa história e nesta estória, o Quarteto em Cy não dá ponto sem nó, nem deixa sem pingo o Y. E a música flui sabiamente. Em 1972, elas lançaram “Sapato Mole”, de Maurício Tapajós, Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte.

“Viagem” (MPB, 1973) – Paulo César Pinheiro e João de Aquino
“Eu sou o recordista mundial de música popular, tenho mais de 2.000 canções compostas e cerca de 1.400 gravadas”, avaliza o compositor Paulo César Pinheiro. Composta aos 14 anos, a canção “Viagem” foi lançada pela cantora Márcia, mas o grande sucesso veio com a gravação de Marisa Gata Mansa, em 1973, a pedido de Clara Nunes. A belíssima melodia é de João de Aquino.

“Espelho” (samba, 1973) – João Nogueira e Paulo César Pinheiro
Filho do violonista João Batista Nogueira, conhecido como Mestre, o cantor João Nogueira cresceu em um ambiente musical, já que sua irmã, Gisa, também compunha. Foi com ela, aliás, que ele estreou como compositor. Para o pai, João Nogueira compôs “Espelho”, parceria com Paulo César Pinheiro que deu título a seu álbum de 1977, e uma das mais comoventes canções a respeito da relação entre pai e filho, tanto em função da letra quanto da melodia levemente melancólica: “O meu medo maior é o espelho se quebrar...”.

“Matita Perê” (folclore, 1973) – Tom Jobim e Paulo César Pinheiro
O ritual se repete toda manhã. Paulo César Pinheiro toma café, lê os jornais e, sentado diante da mesa, coloca sobre ela folhas em branco, à espera da inspiração que inevitavelmente sempre vem, pelo menos há mais de cinco décadas, quando ele compôs o primeiro verso, com 13 anos. 

“Eu me lembro de não saber o que estava acontecendo comigo, fiquei agoniado, nervoso, então eu vi um papel e um lápis, e depois que escrevi foi que me acalmei e consegui dormir”, conta o poeta, letrista, melodista, dramaturgo e cantor, entre outras habilidades que um dos mais prolíficos artistas brasileiros da atualidade vez ou outra explora. Entre as parcerias de vulto está “Matita Perê”, feita com o maestro Tom Jobim, em 1973.

“Tomara” (samba-canção, 1976) – Maurício Tapajós, Novelli e Paulo César Pinheiro
“Ele achava que eu tinha tudo a ver com os meninos que estavam fazendo uma música diferente”, conta Alaíde Costa, em referência a João Gilberto, e faz questão de ressaltar que estas foram as exatas palavras dele. “Peguei a bossa começando a caminhar, participei do comecinho, com espetáculos em colégios, faculdades, foi tudo muito bonito”, garante Alaíde. 

Outro momento de beleza na vida foi quando Milton Nascimento a convidou para participar do disco “Clube da Esquina”, em 1972, na faixa que se tornou célebre, “Me Deixa em Paz”, de autoria de Monsueto e Ayrton Amorim. “Estava há tempos sem gravar, Milton me trouxe de volta”. 

Em 1976, ela lançou “Tomara”, de Maurício Tapajós, Paulo César Pinheiro e Novelli, música que se apegou a seu repertório de sucessos.

“À Flor da Pele” (bolero, 1977) – Maurício Tapajós, Paulo César Pinheiro e Clara Nunes
Enquanto o coro do samba lhe monta um altar, a sereia do mar de Minas faz evocar a mata, o povo, a prata, o céu do sabiá e as forças da natureza. Clara Nunes acende velas, meche os chocalhos, leva fé para os corações que batucam samba e se banham em manjericão. 

Espalha alegria da Bahia a Minas, passando pela Portela. Rodando seu vestido longo e branco, Clara segue o ritmo da morena de Angola com sua voz brasileira de profissão esperança. 

Uma voz que traz o ouro de Minas banhado pelo mar salgado da Bahia e acompanha um sorriso espontâneo coroado por flores e conchas que lhe enfeitam os cabelos. Um brilho mestiço que se encontra nos olhos, no sorriso e no canto místico de Clara Nunes. 

No folclore da sereia brasileira que iluminou as minas de ouro dos corações marejados. Em 1977, Clara lançou o bolero “À Flor da Pele”, parceria que ela assina com Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, registrada no disco “As Forças da Natureza”.

“As Forças da Natureza” (samba, 1977) – João Nogueira e Paulo César Pinheiro
Em 1977, João Nogueira e Paulo César Pinheiro compuseram, especialmente para Clara Nunes, a música “As Forças da Natureza”, que deu nome ao seu disco daquele ano. 

A mineira guerreira, lutadora ativa das lutas sociais, sempre a favor do meio ambiente e das práticas religiosas enraizadas na origem do Brasil, não se fez de rogada e entoou o cântico com toda a magia que dele emana. 

Entre os versos mais impressionantes destaca-se a elementar profecia: “Vai resplandecer/ Uma chuva de prata do céu vai descer/ O esplendor da mata vai renascer/ E o ar de novo vai ser natural/ Vai florir…”. Regravada por Alcione.

“Tô Voltando” (samba, 1979) – Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro
“Tô Voltando”, um samba de 1979 de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro celebra a volta pra casa do narrador que já se delicia com a lembrança dos quitutes tipicamente nacionais com os quais pretende se deliciar em breve, além, é claro, do conforto, carinho e aconchego do lar nos braços de sua amada. 

Interpretada por Simone, no contexto da época foi usada para festejar não apenas o encontro de um casal, mas o retorno de vários anistiados brasileiros que haviam sido exilados em outros países pelo regime ditatorial. 

O ritmo pra cima, festeiro, alegre, contrastava com a situação cinza na qual o país havia emergido, mas era também uma resposta, uma maneira de resistir e provar aos mesquinhos e poderosos da exploração que não se pode tirar da pessoa aquilo que lhe é mais imprescindível, e não se conquista através de determinações, mas de um sentimento honesto e verdadeiro. Como uma cerveja gelada, uma flor perfumada e um amor inquebrantável.

“Bolero de Satã” (bolero, 1979) – João Nogueira e Paulo César Pinheiro
Levada à casa de João Nogueira pelo amigo Paulo César Pinheiro, a cantora Elis Regina ganhou de presente a música “Bolero de Satã”, com letra de Pinheiro e melodia de Guinga. Elis decidiu convidar para a faixa, gravada no álbum “Essa Mulher” (1979), Cauby Peixoto, que ela considerava o melhor cantor do Brasil. Como se sabe, Elis tinha um temperamento competitivo e era avessa a dividir os holofotes. 

Ela não gostava de duetos. De fato, o que se viu foi outra coisa, mesmo com seu ídolo maior. Ao longo dos 3 min 25s da canção, a presença de Cauby se resume a 32 segundos, sendo que, em boa parte deles, Elis faz vocalises ao fundo, e, nos cinco segundos finais, os dois, enfim, unem suas belas vozes.

“Brasil Mestiço, Santuário da Fé” (samba, 1980) – Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte
A mineira Clara Nunes, natural de Caetanópolis, no interior do estado, foi, sem dúvida alguma, a principal voz do sincretismo religioso no Brasil. Ao aderir à umbanda e ao candomblé, cravou sua marca no nosso samba de tantas intérpretes e interpretações. 

Além dos adereços, das danças, e do cabelo, Clara se portava como uma autêntica filha da influência africana no país. Interpretava as músicas com esse sentimento. O samba “Brasil Mestiço, Santuário da Fé”, composição feita especialmente para ela pelo marido Paulo César Pinheiro e o parceiro Mauro Duarte, em 1980, comprova essa tese. O batuque da Cabala, da Umbanda e da Luanda se integram no canto de Clara.

“Rainha Morena” (samba, 1980) – Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro
Baiana, natural de Salvador, nascida no dia 25 de dezembro, data em que se comemora o Natal, e jogadora de basquete profissional, inclusive convocada para a disputa de Mundial da categoria pela Seleção Brasileira, Simone trazia inúmeros adjetivos para se tornar conhecida. 

Porém, a cantora de nome único, sem a necessidade de sobrenome ou alcunha, uma raridade no meio, tornou-se consagrada justamente através da música.

Como se não bastasse essa voz, ao mesmo tempo suave e marcante, agregou como característica indissociável de suas gravações a interpretação única, positiva, temperada pela galhardia e o desbravamento inerentes à própria personalidade. 

Pois música, como arte, é isto: viver intensamente o que se produz, mais até do que de seu resultado. A voz de Simone pontuou, como poucas, vários de nossos momentos históricos. Em 1980, ela lançou “Rainha Morena”, samba de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós.

“Resta Sobre o Bar” (bolero, 1980) – Maurício Tapajós, Paulo César Pinheiro e Guinga
Nelson Gonçalves era um homem vaidoso, a ponto de dizer que ele mesmo se emocionava com as próprias interpretações. Nascido há cem anos, em Santana do Livramento, no interior do Rio Grande do Sul, o homem de voz potente, charmosa e grave acumulou polêmicas, quedas e reerguimentos ao longo dos 78 anos de vida que teve, a maior parte deles dedicados à música. 

Recordista de gravações da música brasileira, Nelson recebeu um prêmio da RCA-Victor por ter ficado 55 anos na gravadora. Além dele, só Elvis Presley obteve tal feito. Mas foi a aclamação popular a maior de todas as conquistas do intérprete, cuja obra continua ecoando. Em 1982, com seu vozeirão, ele lançou “Resta Sobre o Bar”, de Maurício Tapajós, Guinga e Paulo César Pinheiro.

“Portela na Avenida” (samba, 1982) – Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro
A portelense Clara Nunes vivia pedindo ao marido, Paulo César Pinheiro, um samba em homenagem à sua escola. Acontece que o poeta sentia-se meio inibido para a tarefa, pois, além de ter um coração mangueirense, achava que já existia uma obra definitiva sobre a Portela, o samba “Foi um Rio que Passou em Minha Vida”, de Paulinho da Viola. 

Mesmo assim, para agradar à mulher, começou a pensar no assunto e até criou uma pequena célula melódica que não conseguiu desenvolver a contento. Um dia, quando menos esperava, encontrou a ideia numa sala de sua própria casa, onde Clara havia montado um altar para as suas devoções: a imagem de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, uma santa negra com o seu manto azul e branco (as cores da Portela), o pombo de asas abertas, representando o Espírito Santo (a águia portelense), enfim, a combinação do místico com o profano.

“Cabaré [Piano Bar]” (tango, 1986) – Paulo César Pinheiro e Ivor Lancellotti
Paulo César Pinheiro mantém o hábito de, toda manhã, tomar café, ler os jornais e, sentado diante da mesa, colocar uma folha em branco à espera da inspiração. Foi esse ritual que garantiu a ele algumas das letras mais bonitas da música brasileira, além de ter se consagrado como um exímio poeta. 

Ele é autor dos versos de canções como “Espelho” (com João Nogueira), “Portela na Avenida” (com Mauro Duarte) e “Matita Perê” (com Tom Jobim). Em 1986, se uniu a Ivor Lancellotti, compositor de “Abandono”, sucesso de Roberto Carlos, para compor o tango “Cabaré”, também conhecido como “Piano Bar”. A música foi lançada por Nelson Gonçalves, em 1986. “Um garçom enchendo a taça...”.

“Terra do Nunca” (MPB, 1990) – Paulo César Pinheiro e Edu Lobo
“Terra do Nunca” coloca na roda a poesia de Paulo César Pinheiro, na parceria com Edu Lobo. Gravada pelo grupo Boca Livre em 2013, a faixa também teve origem no teatro, ao ser composta para uma peça infantil sobre Peter Pan nos anos 90. 

“A Terra do Nunca é encantada/ Fica numa nuvem lá do céu/ Tem rei, tem fada, rio e passarada/ Tem brinquedos pela estrada”, dizem os versos. A canção traz no encontro entre letra e melodia o seu grande charme. 

A história de “Peter Pan” foi criada pelo dramaturgo e escritor escocês J. M. Barrie em 1911. A primeira vez que o escritor citou Peter Pan em seus livros foi em 1902.

“Saci” (MPB, 1993) – Guinga e Paulo César Pinheiro
A principal e mais conhecida lenda do folclore brasileiro inspirou uma música da parceria entre Guinga e Paulo César Pinheiro, que, em 1993, compuseram “Saci” para lembrar a história do Saci-Pererê: “Quem vem vindo ali/ É um preto retinto e anda nu/ Boné cobrindo o pixaim/ E pitando um cachimbo de bambu”. 

O Internacional de Porto Alegre foi um dos primeiros clubes brasileiros a contratar atletas negros, mesmo antes do profissionalismo. Por seu pioneirismo na luta contra o racismo, o clube adotou o saci-pererê como mascote desde a fundação.

“Cabrochinha” (MPB, 1999) – Paulo César Pinheiro e Maurício Carrilho
Com arranjos de Maurício Carrilho e J. Moraes, a cantora Miúcha lançou, em 1999, o disco “Rosa Amarela”, que trazia, entre outras, “Cabrochinha”, parceria de Carrilho com o poeta e letrista Paulo César Pinheiro. O resultado foi uma das canções mais bonitas do repertório. 

“Cabrochinha” une o romantismo de outrora a uma graciosidade delicada, como por exemplo, no verso em que os compositores lançam mão de expressões estrangeiras já completamente assimiladas ao nosso idioma. 

“Ô monsieur garçom/ Leva o menu que eu não entendo lhufas/ Eu vou pedir esse Don Perignon/ Um scargot e um filet com trufas”. “Cabrochinha” foi regravada no CD “Iaiá” de Mônica Salmaso em 2004.

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