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Estudo mostra que design das redes sociais leva à perda de controle do tempo

Pesquisadores da Universidade de Washington avaliam que as redes levam a estado dissociativo

Por Roseli Andrion | 27/05/2022 às 15:59
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Foto: Reprodução

Os pesquisadores observaram a interação de 43 voluntários com o Twitter

Você já foi transportado para outro mundo ao ler um livro e esqueceu tudo o que estava ao seu redor? Um estudo da Universidade de Washington, nos EUA, concluiu que a navegação nas redes sociais pode produzir o mesmo efeito. “Dissociação é ficar completamente concentrado no que está fazendo”, diz Amanda Baughan, líder do estudo.

Os pesquisadores observaram a interação de 43 voluntários com o Twitter — conectado ao Chirp, um app específico para o estudo — durante um mês e perceberam que alguns indivíduos saem da realidade enquanto navegam. Para a pesquisa, foram criadas estratégias de intervenção que redes sociais podem usar para ajudar os usuários a manterem o controle sobre a experiência.

A ideia da pesquisa surgiu durante os primeiros dias da pandemia de covid-19, já que, com o lockdown, muitos começaram a passar mais tempo no celular. “As pessoas só percebem que dissociaram depois, quando analisam em retrospectiva. É como passar um tempo nas redes sociais e depois se dar conta que se foram 30 minutos quando a ideia era apenas ver uma notificação.”

A equipe conectou o Chirp às contas de Twitter dos participantes para observar a experiência deles. A ferramenta tem recursos adicionais e pesquisas rápidas em formato pop-up. “Uma das perguntas era: o que acontece se a plataforma permitir que o usuário controle seu tempo e atenção?”, diz Alexis Hiniker, uma das autoras. 

Durante o uso, três minutos depois do início da conexão, os usuários recebiam um pop-up que pedia para avaliar em uma escala de 1 a 5 quanto eles concordavam com a afirmação: “Estou usando o Chirp sem prestar atenção ao que estou fazendo.”. A solicitação voltava a cada 15 minutos.

Esses dados foram usados para medir a dissociação. Durante um mês, 42% dos voluntários (18 pessoas) concordaram ou concordaram fortemente com a afirmação pelo menos uma vez. Ao fim do estudo, os pesquisadores entrevistaram 11 participantes e sete deles confirmaram experimentar dissociação durante o uso do Chirp.

Além da pesquisa sobre dissociação, foram usadas diferentes estratégias de intervenção: tanto internas (diretamente no app) quanto externas (como mecanismos de bloqueio e temporizadores). No período do levantamento, os participantes tiveram uma semana sem intervenções, uma com intervenções internas, uma com intervenções externas e uma com ambas.

As intervenções internas pediam que as contas seguidas fossem organizadas em listas e informavam os participantes quando todos os novos tuítes já haviam sido vistos. Já as externas mostravam a atividade no Chirp durante a sessão e enviavam um pop-up a cada 20 minutos para saber se eles queriam continuar usando a ferramenta.

De forma geral, os voluntários gostaram das mudanças e avaliaram que elas ajudaram a manter o foco. Um dos participantes disse que se sentiu mais seguro ao usar Chirp quando havia intervenções. “Mesmo que usem o Twitter para fins profissionais, eles acabam se envolvendo com a infinidade de conteúdo”, aponta Amanda. “As listas ajudaram a limitar o tempo a poucos minutos. Ter aquele pequeno pedaço de conteúdo para consumir realmente fez a diferença.”

Em relação às intervenções externas, a avaliação é mais controversa. Para quem estava dissociando, o pop-up ajudou a perceber isso, mas para quem estava consciente, elas se tornaram inconvenientes. “Alguns disseram que essas intervenções talvez fossem úteis para quem não tinha autocontrole, mas eles não precisavam delas”, comenta Alexis.

Amanda destaca que olhar esse processo como dissociação em vez de adição muda a narrativa. “Em vez de ‘eu deveria ter mais autocontrole’, o correto é ‘todos nós naturalmente passamos por dissociação em diferentes momentos do dia: seja sonhando acordado, seja usando o Instagram, paramos de prestar atenção ao que está acontecendo ao nosso redor’.”

A conclusão dos pesquisadores é que as plataformas são desenhadas para maximizar o valor do cliente, não que falta autocontrole aos usuários. “Elas são feitas para manter as pessoas navegando. Quando estamos em estado dissociativo, ficamos mais vulneráveis e perdermos controle do tempo”, explica Amanda. “As redes sociais precisam criar uma experiência de fim de uso, para que as pessoas aliar o uso a seus objetivos de gerenciamento do tempo.”

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